Nossas Comunidades Estão Ameaçadas

Vivemos nesses territórios muito antes de eles receberem nomes em mapas oficiais. Aqui plantamos, criamos filhos, celebramos e lutamos Acreditamos em um modelo de preservação que escuta, acolhe e constrói com quem sempre cuidou da natureza: os próprios povos da terra. Sem expulsões. Sem apagamentos. Sem falsas narrativas.
Somos comunidades que sempre protegeram o nosso território. Estávamos aqui antes dos decretos, antes das linhas nos mapas, antes da chegada das placas de “proibido” onde antes havia apenas vida e cuidado. O que hoje o Estado chama de áreas protegidas, nós já preservávamos com nossos modos de viver. Mantivemos florestas em pé, cuidamos de nascentes, reflorestamos áreas degradadas.
Protegemos espécies e mantivemos vivas culturas, saberes e as nossas histórias de gerações, fizemos isso sem financiamento público, sem planos de manejo, sem a presença constante de fiscais — mas com compromisso real com a terra e com a vida. Ainda assim, quando a política ambiental oficial chegou, não foi para reconhecer esse trabalho, mas para apagar nossa presença.
O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), que deveria promover a proteção da natureza com participação social, tornou-se uma ferramenta de exclusão. Ao impor categorias de proteção integral sobre territórios ocupados e cuidados há gerações, sem diálogo verdadeiro, transformou guardiões em “invasores”, cortou direitos e impôs insegurança jurídica.
A conservação não pode ignorar os direitos das comunidades, e é plenamente possível compatibilizar a proteção ambiental com a permanência das pessoas que cuidam desses territórios. A ausência de consulta prévia, livre e informada — prevista na Convenção 169 da OIT, na Constituição Federal e na Lei do SNUC — fere a legitimidade dos processos de criação e gestão de Unidades de Conservação.
Não aceitamos que a lei ambiental seja usada de forma seletiva, atendendo aos interesses de quem está no poder, enquanto falta recurso para o que realmente importa. Enquanto estradas vitais seguem abandonadas, recursos milionários são liberados para obras pontuais que servem a agendas políticas. Enquanto áreas produtivas e equilibradas são sobrepostas por decretos, cresce a exclusão socioambiental.
Lutamos por um novo modelo: que reconheça as comunidades como parceiras da conservação; que garanta permanência com direitos e segurança jurídica; que valorize a história e a memória de quem fez e faz a proteção ambiental. Além disso, é urgente revisar as Unidades de Conservação criadas antes da Lei do SNUC. Não somos contra a conservação. Somos contra a exclusão travestida de proteção.