A criação do Parque Nacional dos Campos Gerais impôs sobre o território uma ideia de conservação construída à revelia de quem ali vive e produz há gerações. Instituído por decreto federal em 2006, o parque nasceu sem escuta, sem transparência e sem considerar a complexidade socioeconômica da região. Sua implantação seguiu a lógica do modelo de proteção integral — o mais restritivo da política ambiental brasileira — determinando a desapropriação total da área e proibindo qualquer uso humano. No entanto, mais de 18 anos depois, a realidade mostra outra face: o parque segue sem plano de manejo, sem regularização fundiária completa e com centenas de famílias sob risco de criminalização por simplesmente continuarem a viver e cultivar o território.O conflito não é pontual nem acidental. Ele é estrutural. Resulta da decisão arbitrária do Estado de transformar terras produtivas, com uso consolidado, em uma unidade de conservação desenhada para excluir. Pequenos agricultores, comunidades rurais e povos tradicionais foram ignorados no processo de criação. A consulta pública foi meramente formal. Os estudos técnicos omitiram a existência de múltiplas formas de ocupação e uso legítimo da terra, e nenhuma alternativa foi oferecida aos atingidos. Em vez de construir com as pessoas, a política ambiental foi imposta como sentença: onde antes havia cultivo, troca, cuidado e história, passou a haver apenas proibição.
A ausência de diálogo segue sendo o traço mais perverso da gestão. Não existe plano de manejo nem zoneamento. Não há instrumentos institucionais que reconheçam os usos tradicionais ou as práticas sustentáveis já existentes. Famílias que vivem da terra são tratadas como invasoras. Moradores do entorno veem seus modos de vida restringidos por normas que não reconhecem sua existência. Comunidades quilombolas como Serra do Apon e Tronco, mesmo fora dos limites diretos do parque, sofrem com o impacto indireto da zona de amortecimento, sem que seus direitos territoriais e culturais tenham sido respeitados.
A imposição do modelo de preservação absoluta em um território habitado revela o distanciamento entre a política de conservação vigente e as dinâmicas reais do campo. O parque foi desenhado como se a paisagem estivesse vazia, como se não houvesse história, nem gente. Mas há — e sempre houve. Há vidas, práticas ancestrais, famílias que construíram seu sustento a partir do cuidado com a terra. Ignorar isso é não apenas injusto, mas ineficaz. Uma unidade de conservação que não reconhece os sujeitos do território fracassa em sua própria missão: conservar.
O movimento das comunidades conservacionistas denuncia essa lógica de exclusão. Não se trata de pedir compensações ou negociar indenizações. Trata-se de exigir coerência e justiça. Queremos que o órgão ambiental reveja suas decisões, reconheça os erros do passado e atualize a categoria da unidade de acordo com a realidade do território. A conservação só é legítima quando inclui, quando dialoga, quando respeita. O que está em disputa nos Campos Gerais não é apenas o uso de uma terra. É o direito de existir, de pertencer e de cuidar do lugar de onde se vem.